Lançar um olhar crítico sobre a sociedade e concluir que a situação é ruim e incontrolável é o resultado da grande maioria das conversas de bar, grupos de "intelectuais" ou até mesmo um grupo de amigos onde pelo menos um deles se encontra em um momento particularmente introspectivo e pessimista. Aquele tipo de conversa que termina com um comentário do tipo: "é, a vida é difícil mesmo" e deixa todos em um silêncio temporário até que alguém resolva voltar às práticas polidas da conversação e faça os outros pararem de "falar bobagem".
Este não é o meu objetivo aqui. Temos a situação apresentada em nossas mãos e muito mais responsabilidade do que muitas vezes queremos ver. Ao contrário de épocas passadas, nas quais poderíamos nos sentir realmente impotentes, hoje temos um poder enorme em nossas mãos pelo simples fato de podermos acessar a internet. Como você pode se dizer "pequeno demais" se pode escrever algo que o mundo inteiro tem a capacidade de ler?
A tecnologia nos permite viver vidas que dariam inveja a qualquer "rei" das épocas passadas; uma pessoa de classe social não tão elevada tem acesso a tantas facilidades que a busca pelo prazer e pelo conforto já deixaram de por si só darem um sentido à vida de muitas pessoas, não apenas uma minoria absoluta. Além disso, a psicologia e a disseminação da informação nos mostram mais e mais que a necessidade excessiva de prazer imediatista é fruto de alguma perturbação psicológica, não deixa ninguém realmente satisfeito com a vida.
Deste modo, qual é a justificativa para a ambição de ter mais dinheiro e mais poder? O que as pessoas podem querer mais? Sequer temos tempo de aproveitar as coisas mais básicas que temos, que nem custam mais tão caro ou são difíceis de conseguir. A liberdade de expressão, a liberdade sexual, a liberdade de ir e vir; o fato de termos vastas regiões do globo sem conflito armado, onde sequer sofrer um acidente é estatisticamente muito difícil. Tudo isso dá um outro sentido à idéia de "busca da felicidade".
Há muito tempo buscamos a satisfação pessoal dos modos que conhecemos: aqueles que vêm desde a filosofia grega, dos primórdios da nossa civilização ocidental. Mudamos alguns conceitos, mas fundamentalmente seguimos o mesmo caminho: a visão cartesiana e racionalmente matemática. Ela é que rege a sociedade ocidental e é a principal responsável pelo triunfo do capitalismo e a consequente exaustão dos recursos naturais do planeta.
Porém, as pessoas mais "felizes" que eu conheci em tempos recentes eram orientais: indianos, chineses ou coreanos. Estas pessoas parecem ter uma alegria mais intrínseca em si, é um tipo diferente de satisfação com a vida. Mais centrados em espiritualidade do que na nossa religião "lógica", os orientais parecem ter uma satisfação maior com a vida simples, não se preocupam tanto em tentar explicá-la. Talvez isto seja fruto de filosofias como o budismo, que nos colocam no lugar de "parte do universo", onde devemos nos confortar em ser partes do todo e enormemente impotentes diante da magnitude da realidade.
Talvez falte muito disso para o homem ocidental: humildade e aceitação de seu lugar limitado na infinidade do espaço-tempo, especialmente neste mundo, neste nosso meio-ambiente. Talvez isto nos trouxesse mais paz interior e menos ganância, talvez diminuisse nossa voracidade e angústia. Que a globalização nos coloque mais em contato com formas alternativas de ver o mundo ao invés de soterrá-las embaixo de iniciativas econômicas que coloquem países como a Índia e a China no papel de meras potências ascendentes da loucura capitalista.
Quem sabe respirar fundo e ser capaz de observar a beleza da chuva gotejando nas árvores em um dia frio e desagradável (que para todos os motivos práticos seria uma tragédia em si só) tenha um valor infinitamente maior do que o mais poderoso dos laptops, a mais linda das modelos, a mais deliciosa das comidas e o mais rápido dos carros. Quem sabe nossa salvação resida aí.